Federação dos Trabalhadores na agricultura no Rio Grande do Sul

II Marcha Estadual da Juventude Rural

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    A II Marcha Estadual da Juventude Rural demarcou importante passo desta caminhada de reivindicações de políticas públicas e de mobilização destes jovens que sonham e buscam alternativas e perspectivas para permanecer no campo, afirmando sua identidade enquanto agricultores familiares. A data de 15 de julho representa uma conquista para nós, pois além de comemorar o Dia Estadual da Juventude Rural, representa um marco de mobilização e reivindicação.
    A partir da I Marcha, realizada em 2005, continuamos trabalhando e organizando a juventude rural, como forma de garantir espaço político no debate e na construção das políticas públicas que buscam melhorar a vida de suas famílias no campo, promovendo segurança alimentar com qualidade de vida e com geração de renda.

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Foto da II Marcha Estadual da Juventude Rural realizada em 15 de julho de 2008.


    A CEJTTR - Comissão Estadual de Jovens Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais da FETAG, organizada e representada por todas regiões do Estado, comemora as conquistas enquanto jovens trabalhadores rurais junto às instâncias governamentais,através das políticas públicas já implementadas no meio rural.
    A sucessão rural foi o lema principal desta II Marcha. Temos muitas conquistas, mas queremos muito mais e, principalmente, queremos fortalecer a agricultura familiar através do processo de sucessão da atividade rural, oferecendo oportunidade para a permanência do jovem no meio rural com perspectivas e sonhos reais.
    Entendendo que são necessárias ações urgentes para garantir a efetiva sucessão no meio rural, a II Marcha Estadual da Juventude Rural realizada no dia 15 de julho, propõe um debate junto ao movimento sindical, onde a juventude rural quer discutir esse tema focado na construção de políticas públicas baseado em cinco eixos:



Geração de renda
Esta temática é uma das prioridades enquanto ferramenta estratégica para viabilização e sobrevivência da agricultura familiar e elevação da auto-estima das famílias. Para isso necessitamos criar mecanismos voltados na organização da produção, na agroindustrialização e comercialização, na criação de novos nichos de mercados e/ou implantação de novas matrizes produtivas locais e regionais como forma de agregar valor a nossa produção.

Formação Profissional
Necessitamos de mais investimento na área de formação principalmente para qualificação e gerenciamento da propriedade e nas áreas profissionalizantes como produção de alimentos, agroindústrias e outros, como forma de oportunizar alternativas de geração de renda.
   
Assistência Técnica
Enquanto forma de geração de renda se faz necessário uma assistência técnica presente, qualificada e que interaja com o conhecimento dos agricultores, preservando a realidade local e regional.

Educação Rural
Temos a necessidade de um novo modelo de educação, de uma nova pedagogia, capaz de valorizar a realidade e a auto-estima do nosso jovem. Com isso podemos manter o contato com a propriedade e desenvolvendo, com ele, um projeto de vida digna no meio rural.

Meio Ambiente
    A preservação ambiental e a correta utilização dos recursos naturais devem estar associadas à produção sustentável de alimentos pelos agricultores familiares. Nesse sentido, temos o compromisso de propor alternativas de conscientização da sociedade e lutar por alterações na legislação ambiental, como forma de viabilização dessas famílias em suas propriedades.

Os desafios são grandes.... somos persistentes.... “nós, jovens trabalhadores rurais, acreditamos que lutar vale a pena”


    Precisamos, nós jovens, enquanto organização, buscar a inserção da juventude trabalhadora rural nas direções dos Sindicatos, conhecer a existência de espaço ou apoio a sua organização em Comissões e o perfil desses jovens dirigentes.
    Queremos ampliar nossa participação nas instâncias de direção nos sindicatos, trabalhar para a juventude nos STR’s, discutir sobre o papel dos(as) jovens no STR, formação sindical, perfil do jovem dirigente e instrumentos de renovação das direções sindicais.
    Nos últimos anos, iniciou-se um forte processo de Formação Política, de elaboração de projetos e Políticas Públicas específicas para o jovem do campo, como por exemplo:
  • Primeiro Crédito da Juventude Rural (Criação de Lei Estadual de acesso à terra e investimentos);
  • Programa Nossa Primeira Terra (Programa de acesso à terra e investimentos);
  • Bibliotecas nas comunidades rurais “Projeto Arca das Letras”;
  • Consórcio Social da Juventude Rural (capacitação cidadã e profissional de jovens trabalhadores rurais);
  • Programa de capacitação à distância “Jovem Saber”;
  • PRONAF Jovem (recursos para investimentos na propriedade).

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Encontros Regionais em preparação a II Marcha Estadual da Juventude Rural.



A JUVENTUDE RURAL E OS DESAFIOS SUCESSÓRIOS NAS UNIDADES FAMILIARES DE PRODUÇAO

Eliziário Noé Boeira Toledo

    Poucos estudos têm sido produzidos para entender as transformações sociais que regem os processos sucessórios na agricultura familiar, contudo, já não há mecanismos seguros que garantam a permanência da juventude rural junto às propriedades dos pais, o que parece demonstrar que estes não vislumbram expectativas e atrativos que venha a transformar o meio rural em um local adequado para o projeto de suas vidas.
    Deve-se promover uma reflexão incômoda e necessária buscando responder se as atividades agrícolas conferem o status de profissão aos agricultores e de como a agricultura é vista pelo conjunto da sociedade no que diz respeito a sua função social.
    O meio rural está envelhecendo e masculinizando (Camarano e Abramovay, 1998). Os agricultores têm mais de 55 anos, tem baixa escolaridade, tem dificuldade de produzir renda regular, sendo este um dos tantos fatores que geram dificuldades para fazer com que os filhos permaneçam nas propriedades.
    Os filhos por sua vez têm escolaridade mais elevada, cresceram com uma cultura diferente da dos pais e incorporaram parte do modo de vida urbana; além de não terem sido preparados para a gestão frente aos desafios da produção e mercados da atualidade e vêem poucos atrativos para continuar a profissão dos pais.
    Esse fenômeno cabe na concepção das “rupturas” da agricultura descritas por Hervieu (1990), no tocante a ruptura demográfica, característica da metade do século XX, quando há uma rápida redução da população que se ocupa das atividades agrícolas (Gráfico 1, para o caso brasileiro), ao mesmo tempo em que aumenta a idade dos chefes das propriedades rurais.

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    Para o exercício profissional na agricultura familiar pelos jovens está implícito, além do aprendizado de ofício de agricultor, a gestão do patrimônio imobilizado em terras, instalações e equipamentos.
    Gasson e Errington (1993) destacam três partes: a sucessão do ofício profissional, que significa o preparo para a gerência do negócio e da capacidade de utilização do patrimônio para a próxima geração; a transferência legal da propriedade da terra, instalações e equipamentos existentes; e, a aposentadoria, quando diminui o trabalho e, sobretudo, o poder de mando da atual geração a gestão da propriedade.
    Até final da década de 60 a reprodução era garantida através da expansão agrícola (“colocar os filhos”) pressão moral pela continuidade da profissão de agricultor, “ética da continuidade” (Munton, Marsden, Ward, 1992).
    Nessa visão, os esforços das famílias alocavam seus recursos materiais e humanos para propiciar a “colônia” de terra para os filhos mais velhos especialmente em áreas de expansão agrícola (Oeste de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso), e o mais novo (minorato, ultimogenitura) era alçado à condição de futuro sucessor da propriedade familiar.
    A partir da década de 70, o padrão da sucessão foi alterado, há agora a repartição patrimonial dos bens, onde todos recebem terra e capital igual, o que pode representar uma grande dificuldade quando o tamanho da propriedade for pequeno, o que resultará em inviabilidade para todos, em virtude do parcelamento das terras, transformando-as em lote pequenos demais incapazes de garantir a sobrevivência.
    A terra foi transformada em ativo que pode ser convertido em capital (dinheiro), dessa forma, ela se transforma em mercadoria e sua valorização está muito mais relacionada ao valor de troca do que ao valor de uso.
    Os estudos sobre o tema parecem concordar que há um despreparo e uma despreocupação quanto à sucessão, demonstrando que um contingente bastante significativo de propriedades que não tem nenhum sucessor, nos casos pela Univates (2005) no Vale do Taquari (RS), o percentual foi de 32,5%, e no estudo de Mello et. al., (2003) em Santa Catarina foram de 78% para os rapazes e 75% das moças que ainda não tinham sido escolhidos. As respostas dos pais foram de 61%.
    A pesquisa realizada pela Univates (2005) enumera alguns fatores que externalizam as escolhas dos jovens a ficar ou abandonar as propriedades rurais paternas (Quadro 1).
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    O pai é a figura central no processo sucessório na agricultura familiar, que tem para o poder para decidir qual o momento e a forma da passagem das responsabilidades de gerenciamento e gestão do estabelecimento para a próxima geração.
    O meio rural é um local sabidamente conservador que por vezes cria dificuldades na relação entre pais e filhos no tocante à administração dos negócios da propriedade, que via de regra, os pais somente atribuem responsabilidades aos filhos nos destinos da sucessão quando se aposentam, enquanto os filhos gostariam de ter este poder antecipado.



Referências:
ABRAMOVAY, R. et. al. Juventude e agricultura familiar: desafio dos novos padrões sucessórios. 2. ed. Brasília: Edições Unesco, 1998. 101 p.
CAMARANO, A. A.; ABRAMOVAY, R. Êxodo rural, envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos cinqüenta anos. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 15, n. 2, p. 45-66, jul./dez. 1998.
GASSON, R.; ERRINGTON, A. The farm family business. Wallingford: Cab International, 1993.
MELLO, M. A. A trajetória da produção o e transformação do leite no Oeste catarinense e a busca de vias alternativas. 1998. 165 p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1998.
HERVIEU, B. L’Agrilcture en Ruptures. Alternatives Economiques, Paris, n.90, 1990.
MUNTON, R.; MARSDEN, T.; WARD, N. Uneven agrarian development and the social relations of farm households. In: BOWLER I.; BRYANT, C.; NELLIS, D. Contemporary rural systens in transition. Wallingford: Cab International, 1992.v. 1.
UNIVATES/FETAG/RS. (2005). Dinâmica populacional e sucessão na agricultura familiar no Vale do Taquari, pesquisa de opinião pública. UNIVATES/FETAG/RS/MDA. Dezembro. 100 págs.